Moby Dick: a baleia e uma história real assombrosa

Uma gigantesca baleia enfurecida ataca e afunda o barco de seus predadores. Estamos em 1819, nos confins do Pacífico, um assustador deserto de água, onde 21 marinheiros terão que lutar por suas vidas em minúsculos barcos a vela, sem GPS e com parcos conhecimentos da geografia mundial. Poucos, pouquíssimos sobreviveriam para contar essa história arrepiante.

A saga dos náufragos do navio americano Essex inspirou o clássico “Moby Dick”, de Herman Melville, ele próprio um tripulante de barcos caçadores de baleia, onde teria ouvido pela primeira vez “uma das maiores história verdadeiras já contadas”. A descrição precisa é de Nathaniel Philbrick, que reconstruiu a tragédia do Essex no livro “In The Heart of The Sea” (“No coração do mar”, Companhia das Letras, 2000) . A obra virou filme em 2015, e por aí vocês já sabem como cheguei a mais esse relato marítimo.

A partir de impressionante e cuidadosa pesquisa, conduzida ao longo de 7 anos por Philbrick em diários de tripulantes e inúmeros documentos históricos, o autor nos transporta para a Nantucket do início do século 19. A vila, que ocupa uma ilha a 50 quilômetros do litoral de Massachussets, na costa leste dos EUA, se tornou o centro da caça às baleias do mundo. Fortunas faram feitas com o comércio do óleo extraído das gigantescas criaturas, que queimava em todo o país para iluminar ruas e lubrificar máquinas da era industrial. Quando o Essex parte para o que seria apenas mais um dos rentáveis circuitos de caça pelo Pacífico, o leitor já está  totalmente familiarizado com aqueles bravos marinheiros e seu universo particular, graças à impecável descrição de Philbrick.

Antes disso, a cena inicial é chocante: o resgate de dois marinheiros esquálidos em um barquinho à deriva, seus olhos esbugalhados e as mãos agarradas a ossos humanos dos colegas que garantiram sua sobrevivência de maneira macabra. Assim, ficamos sabendo que algo terrível aconteceu e que houve sobreviventes. Mas como teriam chegado a esse ponto?

O autor então navega com fluidez pelas inúmeras turbulências enfrentadas pelo Essex antes e depois do ataque fatal. Colocados à prova, os jovens marinheiros revelam sua natureza humana: de liderança e coragem a mesquinhez e desesperança. Da alegria do resgate à vergonha da volta para casa, fracassados e emocionalmente destruídos pelo que tiveram que fazer para sobreviver.

Como destaca o livro, ao contrário de aventureiros sobreviventes como Shackleton, que buscaram o perigo, a tripulação do Essex estava apenas buscando um meio de vida quando se depararam com a tragédia.

O envolvente drama do Essex é uma das grandes histórias da humanidade, que merecem ser contadas pelo talento de mestres como Philbrick. E instiga a nós jornalistas – essencialmente, contadores de história – a buscar os grandes enredos verdadeiros do mundo que estão por aí, aguardando seu momento de brilhar num texto bem escrito.


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