Black Mass: até onde vai a aliança com o crime?

Quando vi a combinação de Johnny Depp e filme de gangster, a reação foi quase instintiva. “Donnie Brasco”, longa de 1997 em que Depp vive a história verdadeira de um agente do FBI infiltrado na mafia novaiorquina, é de longe meu filme preferido sobre o tema, possivelmente por se basear em uma história real. O livro do agente Joe Pistone que deu origem ao filme é leitura indispensável para fãs do gênero.

Logo que apareceram matérias sobre o filme “Aliança do Crime”, busquei o livro. “Black Mass” — lançado em português pela editora Intríseca com o mesmo título do filme (R$ 39,90 na Livraria Cultura) — é, antes de mais nada, um trabalho jornalístico primoroso. Em 1988, os repórteres Dick Lehr e Gerard O’Neill, do Boston Globe, decidiram investigar a fundo a curiosa história dos irmãos Bulger. Billy, um dos políticos mais poderosos de Massachussets, e James “Whitey”, notoriamente envolvido em todo tipo de atividade criminosa, mas que sempre conseguia escapar ileso de investigações policiais.

A apuração de Lehr e O’Neill confirmou o que parecia impossível: Whitey era, na verdade, ilegalmente protegido por agentes do FBI, sob a alegação de que a “aliança” valia a pena em nome do combate à máfia italiana em Boston. À época, a reportagem do Boston Globe foi desmentida com veemência pelo FBI e por outras autoridades de segurança pública.

Ao longo dos anos que se seguiram à publicação da reportagem, a verdade finalmente veio à tona. Com base nos testemunhos de seus próprios comparsas, que foram capitulando às forças da lei em colaborações premiadas, os detalhes sombrios da ficha corrida de Whitey Bulger foram revelados — e Whitey fugiu. Chegou a figurar na lista dos 10 mais procurados do FBI, até ser descoberto 16 anos depois.

Pacientemente, Lehr e O’Neill acompanharam a queda de Whitey e do agente John Connolly, seu aliado no FBI. Em 2000, doze anos após da publicação da reportagem no Globe, os repórteres reúnem em livro um relato definitivo da história que haviam revelado. Durante mais de uma década, sob a proteção de agentes corruptos do FBI, Whitey Bulger havia liderado uma organização criminosa envolvida em jogos ilegais, tráfico de drogas e assassinatos.

Para amantes de livros sobre crimes, “Black Mass” é diversão garantida. Também oferece muitos insights sobre o ofício da investigação jornalística, e ainda vai fundo no tema da colaboração de criminosos com a Justiça. Como diz a citação de John Le Carré que abre a terceira e última parte do livro:

Some things are necessary evils,
some things are more evil than necessary.


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